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Crise na vocação sacerdotal não é culpa do celibato

Publicado em 24/11/2011 por Leonardo Meira e Nicole Melhado

O celibato, um carisma e um mistério a ser decifrado e decodificado, salienta o Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, Dom Pedro Brito Guimarães.

Para o Arcebispo de Palmas (TO), ser celibatário é uma graça que quando acolhida e vivida se multiplica. “Todo dom exige uma resposta, que eu chamaria de contra-dom. O melhor da graça é a ação de graça", destaca.

E em resposta às críticas quanto dizem que o celibato mais atrapalharia do que ajudaria a vida da Igreja, Dom Pedro reforça que existem outros fatores que contribuem para a crise das vocações sacerdotais e que atribuir tudo ao celibato é “desconhecer os outros mecanismos que fazem a cabeça das famílias e da juventude e movem a sociedade como um todo”.

Dom Pedro foi um dos palestrantes do Simpósio Nacional O dom do celibato na vida e na missão da Igreja, concluido nesta quarta-feira, 23, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Confira a entrevista exclusiva de Dom Pedro ao noticias.cancaonova.com.

noticias.cancaonova.com - Os ministérios ordenados e a vida consagrada possuem como característica marcante a vivência do dom do celibato. Que relevância esse assume no mundo contemporâneo?

Dom Pedro Brito Guimarães - O celibato é realmente uma característica marcante da vida e da missão do ministro ordenado e das pessoas de vida consagrada. O celibato é realmente um dom, um carisma e um mistério a ser decifrado e decodificado. Dom significa dizer que ele não me pertence, que me é dado, doado e por mim recebido gratuitamente. Dom nos remete a Deus, doador de todos os dons e bens da salvação.

Somente Deus tem um dom como este, tão absoluto e radical, para doar a quem Ele escolhe, para estar com Ele, e o enviar em missão. Ser celibatário é uma graça e uma vocação. Por isto só vive bem o celibato quem é agraciado com este dom, carisma, mistério e ministério.

No entanto, para o sacerdote ministerial é também uma norma canônica, enquanto que para as pessoas de vida consagrada é um voto, um dos três conselhos evangélicos. Isto faz a diferença do dom do celibato para o ministro ordenado e a pessoa de vida consagrada.

noticias.cancaonova.com - Há uma ideia propagada de que o celibato mais atrapalharia do que ajudaria a vida da Igreja, como no que diz respeito ao número de vocações e à vida afetivo-sexual dos consagrados. Nessa perspectiva, por que o celibato é defendido como um dom? Como ressaltar esse aspecto?

Dom Pedro - Não sei quem é o autor desta idéia. Sei apenas que ela é muito difusa e serve de pretexto e justificativa. Esta é uma tese que por si só não se sustenta. E onde o celibato não é obrigatório, o que justifica a carência de ministério ordenado? Existem outros fatores que contribuem em muito para a crise das vocações sacerdotais.

Certamente o celibato é um desses fatores. Mas não pode ser o bode expiatório. Não o único nem o maior e nem ainda o mais importante. A crise porque passam as vocações é uma crise de sentido da vida, de falta de doação, de espírito de serviço e vivência do evangelho. Atribuir tudo ao celibato é desconhecer os outros mecanismos que fazem a cabeça das famílias e da juventude e movem a sociedade como um todo.

Confesso que gostaria de saber o porquê, assim eu iria atrás da solução. Em poucas palavras, a crise vocacional para o celibato é crise sócio-cultural e pró-existencial, trazida pela mudança de época. Acho que a chave está aqui.

noticias.cancaonova.com - No que diz respeito ao celibato, ele é um dom mas, ao mesmo tempo, algo que se aprende. Como os consagrados podem viver um processo de formação permanente neste sentido? De que forma a Igreja no Brasil trabalha ou pensa em trabalhar com essa temática?

Dom Pedro - Todo dom exige uma resposta, que eu chamaria de contra-dom. O melhor da graça é a ação de graça. O melhor do dom é a capacidade de pô-lo em prática e de vê-lo multiplicado. Cairia bem aqui uma reflexão sobre as parábolas dos talentos (Mt 25,14-30) e das moedas de prata (Lc 19,11-28). Tudo é aprendizagem. Somos todos aprendizes, na vida e na história, na Igreja e na sociedade, inclusive do celibato.

Ninguém nasce sabendo: se aprende a falar, falando, caminhar, caminhando, nadar, nadando... Com o celibato não é diferente. Nascemos celibatários, mas temos que a prender a ser e a viver o celibato. Aprendemos a ser celibatário sendo, vivendo, se formando, se informando, se doando, com e como Jesus e na sua escola.

O testemunho de pessoas sadias, santas, maduras, pró-existentes, equilibradas, realizadas, ajuda muito nesta escola vivencial. Mas requer também dedicação, curtição, investimento, empenho, estudo, formação da mente, do coração e da alma.

Fonte: Canção Nova

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