Dom Alberto Taveira Corrêa na Posse da nova Diretora da Faculdade Católica
Terça-Feira, 22 de Setembro de 2009
Senhoras e Senhores,
Senhora Diretora, Professora Clarete de Itoz
A Arquidiocese de Palmas se alegra com esta solenidade, na qual fizemos memória cheia de gratidão ao Professor Luís Antônio Damas, chamado pelo Senhor para a sua Páscoa definitiva, para abrir os olhos na eternidade, recebendo tudo o que nesta vida esperou com fé, olhamos para frente, buscando juntos responder aos grandes desafios abertos no horizonte para a Faculdade Católica do Tocantins e a missão que lhe é confiada, Professora, pela Diretoria da União Brasiliense de Educação e Cultura, Mantenedora desta Instituição. Colho a oportunidade para agradecer a resposta pronta dada pelas Congregações que compõem a mantenedora, a saber, Salesianos de Dom Bosco, Filhas de Maria Auxiliadora, Irmãos Maristas, Padres Estigmatinos e Irmãos Lassalistas, desde a implantação da Arquidiocese de Palmas. De fato, estas Congregações religiosas têm seu nome gravado em letras de fogo na história da Arquidiocese de Palmas, pois nos possibilitaram ter a primeira Universidade Católica em implantação efetiva de toda a Região Amazônica. Santo orgulho, imensa responsabilidade!
De minha parte, quero compartilhar com todos os presentes o pensamento da Igreja e o pensamento da Arquidiocese de Palmas sobre a missão das instituições de Educação Católica e de uma Faculdade Católica, assim como as expectativas da Arquidiocese de Palmas.
A inspiração vem do Documento de Aparecida, resultado da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, da qual tive o privilégio de participar, como delegado dos Bispos Brasileiros. Ali, todos os segmentos de vida eclesial foram convidados a assumir a proposta de configurar a vida de Igreja como “Discípulos Missionários”, num tempo em que se abre passagem para um novo período da história, caracterizado pela desordem generalizada que se propaga por novas turbulências sociais e políticas, pela difusão de uma cultura distante hostil à tradição cristã e pela emergência de variadas ofertas religiosas que tratam de responder, à sua maneira, à sede de Deus que nossos povos manifestam. A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada na nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários.1 Trato apenas de respigar, a modo de uma colheita, as principais indicações da Conferência de Aparecida, para responder com todos os presentes à pergunta sobre as motivações da presença da Igreja na Educação.
A chave é “Discípulo”! As instituições católicas de ensino hão de caminhar para esta meta. Não bastam professores, alunos, funcionários, planos de ensino! O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, palavras lapidares do grande Papa Paulo VI. Ou se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas. São Pedro exprimia isto mesmo muito bem, quando evocava o espetáculo de uma vida pura e respeitável, "para que, se alguns não obedecem à Palavra, venham a ser conquistados sem palavras, pelo procedimento". Será, pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de evangelizar este mundo, antes de outras ações; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo; numa palavra, testemunho de santidade. 2
Certamente tais afirmações num ambiente acadêmico, provocarão mais perguntas do que respostas. E não é outro o propósito de uma instituição que se preze pela qualidade de seus processos formativos. Conhecer e anunciar Jesus Cristo, caminho, verdade e vida, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a sua voz. 3
As instituições de Educação Católica, em todos os níveis, são chamadas a se transformarem, antes de tudo, em lugar privilegiado de formação e promoção integral, mediante a assimilação sistemática e crítica da cultura, fato que consegue mediante um encontro vivo e vital com o patrimônio cultural. Isto supõe que esse encontro se realize na escola em forma de elaboração, ou seja, confrontando e inserindo os valores perenes no contexto atual. As diferentes áreas do saber precisam se apresentar não só um saber por adquirir, mas valores por assimilar e verdades por descobrir4. Constitui sua responsabilidade estrita destacar a dimensão ética e religiosa da cultura, para ativar o dinamismo espiritual do sujeito e de ajudá-lo a alcançar a liberdade ética que pressupõe e aperfeiçoa a psicológica.
Mas não se dá liberdade ética, a não ser na confrontação com os valores absolutos dos quais depende o sentido e o valor da vida do ser humano. A educação humaniza e personaliza o ser humano quando consegue que este desenvolva plenamente seu pensamento e sua liberdade, fazendo-o frutificar em hábitos de compreensão e em iniciativas de comunhão com a totalidade da ordem real. Desta maneira, o ser humano humaniza seu mundo, produz cultura, transforma a sociedade e constrói a história. O desafio é o como realizar este caminho! Entrego com alegria esta proposta nas mãos da nova diretora e de toda Faculdade Católica do Tocantins.
Em suas Escolas, em todos os níveis, a Igreja é chamada a promover uma educação centrada na pessoa humana que é capaz de viver na comunidade. Diante do fato de que muitos se encontram excluídos, a Igreja deverá estimular uma educação de qualidade para todos, formal e não-formal, especialmente para os mais pobres. Uma educação que ofereça o encontro com os valores culturais do próprio país, descobrindo ou integrando neles a dimensão religiosa e transcendente. 5
No projeto educativo da Escola Católica, Cristo o Homem perfeito, é o fundamento em quem todos os valores humanos encontram sua plena realização e, a partir daí, sua unidade. Ele revela e promove o sentido novo da existência e a transforma, capacitando o homem e a mulher a viverem de maneira divina; ou seja, para pensar, querer e agir segundo o Evangelho, fazendo das bem-aventuranças a norma de suas vidas.
Precisamente pela referência explícita e compartilhada por todos os membros da comunidade escolar, a visão cristã – ainda que em grau diverso, e respeitando a liberdade de consciência e religiosa dos não cristãos presentes nela - a educação é “católica”, pois os princípios evangélicos se convertem para ela em normas educativas, motivações interiores e, ao mesmo tempo, em metas finais. Este é o caráter especificamente católico da educação. Jesus Cristo, pois, eleva e enobrece a pessoa humana, dá valor a sua existência e constitui o perfeito exemplo de vida. Esta é a melhor notícia, proposta pelos centros de formação católica.6
Um princípio irrenunciável para a Igreja é a liberdade de ensino. O exercício do direito à educação, como condição para sua autêntica realização, reivindica a plena liberdade que deve gozar toda pessoa na escolha da educação de seus filhos que considere mais adequada aos valores que eles mais estimam e que consideram indispensáveis. A sociedade precisa reconhecê-los como os primeiros e principais educadores. Este princípio é irrenunciável e manifesta suas conseqüências também aqui, no mundo universitário, pelo fato de nós pretendermos - e faz parte da sadia pretensão cristã - dar nossa contribuição na formação das novas gerações de profissionais, em vista de um mundo novo.7
A Escola católica é chamada a uma profunda renovação, no resgate da identidade católica de nossos centros educativos por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a ser uma opção profética plasmada em uma pastoral da educação participativa. Tais projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade eclesial e cultural, e com excelência acadêmica. Além disso, há de gerar solidariedade e caridade para com os mais pobres. 8
A Universidade Católica presta uma importante ajuda à Igreja em sua missão evangelizadora. Trata-se de um vital testemunho de Cristo e de sua mensagem, tão necessários e importantes para as culturas impregnadas pelo secularismo. Suas atividades estão vinculadas à missão evangelizadora da Igreja. Essa missão se realiza através de uma pesquisa realizada à luz da mensagem cristã, que coloque os novos descobrimentos humanos a serviço das pessoas e da sociedade.
Dessa forma oferece uma formação dada em um contexto de fé, que prepara pessoas capazes de um juízo racional e crítico, conscientes da dignidade transcendental da pessoa humana, o que implica uma formação profissional que compreende os valores éticos e a dimensão de serviço às pessoas e à sociedade; o diálogo com a cultura, que favorece uma melhor compreensão e transmissão da fé; e a pesquisa teológica que ajuda a fé a se expressar em linguagem significativa para estes tempos. A Igreja quer sentir estes centros pertos de si mesma e deseja tê-los presentes e operantes na difusão da mensagem autêntica de Cristo. 9
A Universidade Católica, por conseguinte, terá que desenvolver com fidelidade sua especificidade cristã, visto que possui responsabilidades evangélicas que instituições de outro tipo não estão obrigadas a realizar. Entre elas, encontra-se, sobretudo, o diálogo fé e razão, fé e cultura e a formação de professores, alunos e pessoal administrativo através da Doutrina Social e Moral da Igreja, para que sejam capazes de compromisso solidário com a dignidade humana, de serem solidários com a comunidade e de mostrar profeticamente a novidade que representa o cristianismo na vida das sociedades latino-americanas e caribenhas. Para isso, é indispensável que se cuide do perfil humano, acadêmico e cristão dos que são os principais responsáveis pela pesquisa e docência. 10
Faz-se necessária uma pastoral universitária que acompanhe a vida e o caminhar de todos os membros da comunidade universitária, promovendo um encontro pessoal e comprometido com Jesus Cristo e múltiplas iniciativas solidárias e missionárias. Também se deve procurar uma presença próxima e dialogante com membros de outras universidades públicas e centros de estudo.11
Os dois campi universitários da Faculdade Católica do Tocantins estão na Arquidiocese de Palmas. O que a Igreja de Palmas espera da Faculdade? Esta pergunta foi feita pelo meu querido amigo Pe. Décio Batista Teixeira SDB, Diretor e Presidente da UBEC. Antes de esperar algo, nossa Igreja agradece pela presença da UBEC e pelo acontecimento chamado Faculdade Católica do Tocantins.
“Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.12 Espero que seja uma Faculdade, no excelência de seus procedimentos, na competência de sua administração, na seriedade de seus processos acadêmicos. Como cristãos católicos, não temos o direito de ser incompetentes, mas o dever da qualidade total, cujas raízes estão mais no Céu do que na terra. Esta será alcançada se buscarmos as coisas do alto!13
Faculdade Católica! Trata-se de buscar a confessionalidade da Instituição, sem a qual seu nome se torna falso. Que esta Faculdade seja uma expressão da Igreja e dos valores do Evangelho. A coerência com a fé cristã seja uma de suas características
Nos Campi I e II, o ambiente é da academia, com seu saber provocante, dialogal, mas construído sobre convicções profundas. Ser católico é também ser acolhedor, como a Igreja que tem vocação de portas abertas, para que todos se sintam bem. Pessoas de outras Igrejas e Comunidades Cristãs, assim como pessoas convicções religiosas e também aquelas que não as têm, sejam bem vindas, para serem acolhidas pela casa que é a Católica do Tocantins. Experimentem também como é bom e suave vivermos juntos onde o Senhor se faz presente, ele que prometeu estar entre aqueles que se reúnem em seu nome.
Faculdade Católica do Tocantins. A Faculdade esteja enraizada nesta terra quente e amada! Ajudem-nos a ser mais tocantinenses e palmenses. A Faculdade, nos diversos campos do saber, contribua para que nossa cultura seja valorizada e preservada, nossa religiosidade reconhecida e incentivada. Sejam presença na cidade de Palmas, com seus desafios ligados ao crescimento e consolidação de suas estruturas. Pessoalmente, aproveito a oportunidade para propor que especialmente a cultura indígena da nação Xerente, com suas sessenta aldeias em nossa Arquidiocese, seja contemplada nos diversos âmbitos de pesquisa e presença. Há algum tempo os índios nos disseram que para eles a Igreja Católica é a única instituição confiável. Participem conosco desta e responsabilidade, confiadas pela Providência Divina.
Faço minhas as palavras da Conferência de Aparecida, acolhendo-as como dirigidas à Faculdade Católica do Tocantins: “Esta V Conferência agradece o inestimável serviço que diversas instituições de educação católica prestam na promoção humana e na evangelização das novas gerações, como sua contribuição à cultura de nossos povos e apoio às dioceses, congregações religiosas e organizações de leigos católicos que mantêm escolas, universidades, institutos de educação superior e de capacitação não formal, a prosseguirem incansavelmente em sua abnegada e insubstituível missão apostólica”. 14
Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Palmas
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